A hidroxicloroquina pode causar problemas de visão? Essa é uma dúvida muito comum entre pacientes que iniciam tratamento para doenças como lúpus, artrite reumatoide e síndrome de Sjögren.

A resposta é: sim, mas o risco é baixo quando o medicamento é utilizado na dose adequada e acompanhado corretamente.

A hidroxicloroquina é um dos medicamentos mais importantes da Reumatologia e seu benefício costuma superar amplamente os riscos. No entanto, em uma pequena parcela dos pacientes, ela pode provocar uma alteração na retina chamada retinopatia por hidroxicloroquina.

A boa notícia é que hoje dispomos de exames capazes de identificar alterações muito precoces, antes que o paciente perceba qualquer perda visual.

Neste artigo, você vai entender:


O que é a retinopatia por hidroxicloroquina?

A retina é uma fina camada localizada no fundo do olho responsável por transformar a luz em imagens.

Dentro da retina existe uma região chamada mácula, responsável pela visão central, leitura, reconhecimento de rostos e percepção de detalhes.

Com o uso prolongado da hidroxicloroquina, pequenas quantidades do medicamento podem se acumular nas células da retina. Em alguns pacientes, isso pode levar à degeneração progressiva dessas células, causando a chamada retinopatia por hidroxicloroquina.

Essa toxicidade costuma ser silenciosa durante muitos anos.

Quando os primeiros sintomas aparecem, geralmente já existe perda estrutural da retina. Por isso, o objetivo do acompanhamento oftalmológico é encontrar alterações antes que a visão seja comprometida.


A hidroxicloroquina pode causar cegueira?

Essa é uma preocupação frequente, mas a resposta tranquiliza a maioria dos pacientes.

Quando o medicamento é utilizado na dose correta e o rastreamento é realizado regularmente, a chance de perda visual importante é muito pequena.

Os casos graves descritos na literatura costumam ocorrer em pacientes que:

Em outras palavras: o maior aliado da visão é o diagnóstico precoce.


Qual é o risco real?

Quando a dose é inferior a ≤5 mg/kg/dia, o risco é bastante baixo.

Os estudos mostram que a chance de toxicidade é aproximadamente:

Isso explica por que muitos pacientes utilizam hidroxicloroquina durante décadas sem desenvolver qualquer alteração ocular.


Quais são os sintomas?

Na fase inicial, não existe nenhum sintoma.

É justamente por isso que o rastreamento é tão importante.

Infelizmente, quando os sintomas de baixa visão aparecem, parte da retina já sofreu dano permanente.


Como é feito o acompanhamento oftalmológico?

As recomendações internacionais foram atualizadas recentemente.

Hoje o rastreamento é baseado principalmente em exames de imagem da retina.

O objetivo é detectar alterações microscópicas antes do aparecimento dos sintomas.

Dois exames são recomendados: a tomografia de coerência óptica (OCT) e a Autofluorescência (FAF):

1. Tomografia de Coerência Óptica (OCT)

O OCT é considerado o principal exame para rastreamento.

Ele produz imagens em alta resolução das diferentes camadas da retina.

É capaz de mostrar pequenas alterações estruturais anos antes da perda visual.

O exame é:

Na prática, é o exame mais importante do acompanhamento.

2. Autofluorescência da retina (FAF)

A autofluorescência permite avaliar o funcionamento do epitélio pigmentado da retina.

Ela complementa o OCT, mostrando áreas onde as células começam a sofrer antes mesmo de ocorrer perda anatômica importante.


Quando devo fazer o primeiro exame?

Todo paciente deve realizar uma avaliação oftalmológica logo após iniciar a hidroxicloroquina.

Essa consulta inicial serve para:


Com que frequência devo repetir os exames?

Isso depende do risco individual.

Pacientes sem fatores de risco

Após o exame inicial, o rastreamento específico para toxicidade costuma ser realizado anualmente a partir do quinto ano de uso.

Pacientes de maior risco

O acompanhamento anual deve começar desde o início do tratamento.

São considerados pacientes de maior risco aqueles que apresentam:

A frequência dos exames pode ser individualizada conforme cada caso.


A retinopatia melhora após suspender a hidroxicloroquina?

Infelizmente, não.

As alterações estruturais da retina costumam ser permanentes.

Além disso, em alguns pacientes a doença pode continuar evoluindo por algum tempo mesmo após a interrupção do medicamento.

Esse é um dos principais motivos pelos quais buscamos identificar alterações ainda muito precoces.

Quanto mais cedo o diagnóstico, menor a chance de perda visual.


Devo parar a hidroxicloroquina por conta própria?

Não.

A hidroxicloroquina é um medicamento extremamente importante para o controle de diversas doenças autoimunes e sua interrupção sem orientação pode provocar reativação da doença de base.

Caso exista suspeita de toxicidade, o oftalmologista irá discutir os achados com o reumatologista ou outro médico responsável pelo tratamento antes de definir a melhor conduta.

O acompanhamento deve ser feito de forma integrada.


Perguntas frequentes (FAQ)

Quem usa hidroxicloroquina sempre terá problemas de visão?

Não. A grande maioria dos pacientes nunca desenvolverá retinopatia, principalmente quando utiliza a dose correta e realiza acompanhamento oftalmológico periódico.

Posso fazer apenas o fundo de olho?

Não. O exame clínico isolado pode ser normal mesmo quando já existem alterações microscópicas detectáveis pelo OCT e pela autofluorescência.

OCT detecta precocemente a toxicidade?

Sim. Atualmente ele é considerado um dos principais exames para identificação precoce da retinopatia por hidroxicloroquina.

Se meu exame estiver normal, posso ficar tranquilo?

Sim. Um exame normal é bastante tranquilizador, mas não elimina a necessidade de acompanhamento periódico enquanto o uso da medicação continuar.


Conclusão

A hidroxicloroquina continua sendo um medicamento seguro e extremamente importante no tratamento de diversas doenças autoimunes. O risco de toxicidade ocular existe, mas permanece baixo quando a dose é adequada e o acompanhamento oftalmológico segue as recomendações atuais.

O rastreamento moderno, baseado principalmente na tomografia de coerência óptica (OCT) e na autofluorescência da retina, permite identificar alterações muito precoces, muitas vezes antes de qualquer sintoma. Isso possibilita uma tomada de decisão conjunta entre oftalmologista e reumatologista, reduzindo significativamente o risco de perda visual.

Se você faz uso de hidroxicloroquina, converse com seu oftalmologista sobre o momento ideal para iniciar o rastreamento e quais exames são mais indicados para o seu caso.

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